A última vez que encontrei Ana, foi em julho, aquele mês frio e cinza
E me lembro do seu perfume adocicado, e seu cachecol vermelho sangue
A gente tomou um conhaque, e trocou mágoas por uns segundos
Ela disse que desejou beijos e flores, e que conseguira isso
Só que hoje não faz mais sentido aquelas quase-verdades
As desilusões de um quase-amor quase-perfeito.

Estava escuro no bar, mas ainda conseguia ver seu sorriso dolorido
E as marcas tristes que o tempo marcou na sua alma infantil
E quando lembro de seu perfil, vejo beleza onde não há.

Antes de se magoar com mentiras que ela adorava repetir, disse num tom grave, que Pietro havia se casado
E com uma moça de olhos cor-de-mel, disse isso com inveja nos lábios.
Já eram doses de solidão que engolia sem pensar
E o filtro não filtrava mais nada.
Ana falava como quem fala a um Vigário
Como se eu pudesse absolvê-la de seus momentos de fraqueza.
E assim ela repetia suas doces mentiras, tentando convencer não a mim, de que um dia foi feliz
Mas as coisas acabam, e o amor não é tudo – dizia.

Continuamos com filosofias pós-meia-noite
Vira-e-mexe ela repetia suas mentiras, que de doces, já não tinham nada.
O amargo da vida não é como num filme
A essa hora a gente diz o que não quer
Mas eu ainda tentava estabelecer silêncio no meio de tantas palavras ditas.

Hoje quando acordei e me vi diante ao espelho
Percebi que Ana envelheceu dez vezes o que deveria.
Mas o que dói é que eu paralisei o tempo e me vejo cada vez mais inexperiente.
Ana me disse que a cada dez coisas que falamos, pelo menos oito são frutos de um pensamento incompleto
E a cada dez que escrevemos, as dez servem para que abafemos as palavras e contemplemos o silêncio que destas advém. A tristeza me parece hoje mais uma condição humana em meio ao caos.
Quem é capaz de conter a loucura (?)
De ser Ana, ou ser mulher, o que nos resta para além do existir (?)

Ainda ouço as doces mentiras de Ana, e acredito que sejam sinceras.
A gente ouviu Joni Mitchell
E percebi que Richard seria ótima companhia para Ana, porque ele não existe – ilógico perfeito.
E os meus dedos resolveram mentir pra nós, e escrever isto aqui.