2016 foi um ano difícil. Difícil porque evidenciou em nós coisas que nem sabíamos que deixamos de nos importar. Em algum momento, deixamos de nos importar com algo além de nós, além da nossa mera e simples existência. Foi um ano difícil porque no se deparar com outro encontramos coisas ruins dentro de nós. Ser um ser social, nada tem a ver com não ouvir a si. Ouvir a si, aliás, é um princípio de empatia, que nasce à medida que nos enxergamos no outro.

 

Ser social, ser coletivo, é também ser só. E isso também fez de 2016 um ano difícil. Parafraseando os clássicos invejáveis, cada um sabe a dor e a beleza de ser o que é. Ser o que é nunca é um exercício individual.

 

O que se espera de retrospectivas? Revisar os erros, celebrar os acertos, comemorar a existência, talvez, a sobrevivência ao caos? Aliás, portanto, as retrospectivas pouco servem pra se ser alguma coisa no presente, e mais ainda, no futuro.

 

Mas a gama das inutilidades, das vontades incontroláveis desse mundo frenético, solitário e tão já esquecido, faz com que acreditemos que fazer votos de boas coisas as tornam mais próximas de nós. E seria uma grande contradição, mais do que todas as que em mim habitam, se eu não acreditasse no peso das palavras. Eu quero sim, mesmo nesse caos do mundo, poder ter esperança. A esperança é revolucionária. É o motor dos corações efusivos, latentes e inconformados. Eu espero poder esperar coisas melhores. Eu espero, simplesmente, poder esperar. Esperar que em nós, o ser que somos, coletivos que somos, nada além do vivo continue resistindo.

 

Eu espero que o próprio desejo, que uma contagem historicamente construída, num calendário edificado por nós, e só por nós, possa nos mobilizar para que os rituais de passagem nos transformem em um algo melhor. Um melhor que seja capaz de afetar, não um melhor que nos conforte. Um melhor que não se imobiliza, nem seja possível de calar. Um melhor que nos quantifique, que nos junte, que nos enfureça. Um melhor que nos torne melhor para o outro, que tanto nos reflete.

 

Eu faço votos de que possamos caminhar com menos pesos a carregar. E que os pesos que não conseguirmos nos livrar, sejam aqueles que possam servir de barricadas nas lutas.

 

Eu faço votos de que possamos realmente entender que todo ser sou eu. Eu carrego o mundo dentro de mim.

 

E agora, que tantas palavras foram jogadas à sorte do cosmos, e que o texto fica mais démodé a cada clichê repetido, eu espero mesmo que tenhamos um ano melhor. E que o melhor seja sempre um conceito, não um slogan. Que o melhor seja sempre resignificado para abarçar os sonhos mortais. Que o melhor não seja, nem esteja, só.