Morte, como é ruim ouvir essa palavra, um verbo tão esquecido na nossa mente, mas, lembrado quando alguém parte para outra, desde um parente, amigos ou desconhecidos.

Quando lembramos que existe, nosso estômago parece que fica vazio, nossos olhos encham de lágrimas, e os pensamentos ficam nas nuvens. E vem aquelas perguntas, para onde vamos? O que vai ser de mim? Porque existe esse fim em nossa vida? Porque morrer?

Parece uma palavra negativa e engana-se você, isso é uma dádiva da vida. Um presente lindo, onde, quando nascermos, iremos morrer. Parece ser simples falando / escrevendo, mas, está tampouco longe de ser algo tão normal.

Infelizmente, fomos criados a ter medo do término, pois tudo que é eliminado, dói. Seja um trabalho, um amizade, namoro e etc. Pois somos sensíveis, a nossa sociedade implantou isso.

Esse artigo não é para descobrir onde estaremos após o falecimento, mas sim, uma reflexão.

trechos tirado do livro ensaios, Michel de Montaigne, “de como filosofar é aprender morrer:”

Diz Cícero, “filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como que um aprendizado em vista dela.

Ou então é porque, de toda sabedoria e inteligência, resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer. Em verdade, ou nossa razão falha ou seu objetivo único deve ser a nossa própria satisfação, e seu trabalho tender para que vivamos bem, e com alegria, como recomenda a Sagrada Escritura [Eclesiastes 3,12: “Então compreendi que não existe para o homem nada melhor do que se alegrar e agir bem durante a vida”].

Todas as opiniões propõem que o prazer é a meta da vida, mas diferem no que concerne aos meios de atingir o alvo. E, se assim não fosse, as repeliríamos de imediato, pois quem daria ouvido a alguém que apontasse a pena e o sofrimento como os objetivos da existência? A esse respeito, as dissensões entre seitas filosóficas são puro palavrório: “deixemos de lado essas sutilezas” (Sêneca); em tais discussões entra mais obstinação e picuinha do que convém à ciência tão respeitável. Mas em qualquer papel que se proponha desempenhar põe o homem um pouco de si mesmo.”

“Marchamos todos para a morte; nosso destino agita-se na urna funerária; um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, o nome de cada um dali sairá e a barca fatal nos levará a todos ao eterno exílio” (Horácio). Portanto, se a receamos, temos nela um motivo permanente de tormentos e andaremos como em país inimigo, a deitar os olhos para todos os lados: “ela é sempre uma ameaça, como o rochedo de Tântalo” (Cícero).

Nossos tribunais ordenam, muitas vezes, que se execute o criminoso no próprio local do crime. “Conduzam-no durante o trajeto, entre belas residências, e deem-lhe as melhores refeições; as mais deliciosas iguarias não poderão acariciar-lhe o paladar, nem o canto dos pássaros, nem os acordes da lira lhe devolverão o sono” (Horácio).

Pensais que será sensível a nossos cuidados e que o fim último de sua viagem, sempre em mente, não lhe alterará e tornará insosso qualquer possível prazer? “Inquieta-se com o caminho, conta os dias, mede a vida pela extensão da estrada, sem cessar atormentado pela ideia do suplício que o espera” (Cláudio).

A meta de nossa existência é a morte; é este o nosso objetivo fatal. Se nos apavora, como poderemos dar um passo à frente sem tremer? O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez será precisa para uma tal cegueira? “Por que não coloca o freio no rabo do asno, já que meteu na cabeça andar de costas?” (Lucrécio).

Não há como estranhar que caia tantas vezes na armadilha. As pessoas se apavoram simplesmente com lhe ouvir o nome: a morte! E persignam-se como se ouvissem falar no diabo. E, como ela é mencionada nos testamentos, só resolvem fazer o seu quando o médico os condenou. E Deus sabe em que estado de espírito se encontram então, sob o impacto da dor e do pavor.

Como esta palavra ressoava demasiado forte a seus ouvidos, e lhes parecia de mau augúrio, tinham os romanos se habituado a adoçá-la ou a empregar perífrases. Em vez de dizer: “morreu”, diziam: “parou de viver, viveu”; bastava-lhes que se falasse em vida. Nós lhes tomamos de empréstimo esses eufemismos e dizemos: “Mestre João se foi”. [2] Se, porventura, se aplica o ditado “a palavra é de prata”, como nasci no último dia de fevereiro de 1533, faz exatamente quinze dias que completei meus trinta e nove anos. Posso, pois, esperar viver ainda tal período; e atormentar-me meditando sobre tão longínqua eventualidade, seria loucura. Mas jovens e velhos se vão da vida em condições idênticas. Partem todos como se acabassem de chegar, sem contar que não há homem tão decrépito ou velho ou alquebrado que não alimente a esperança da longevidade de Matusalém, e não tenha ainda vinte anos de vida diante de si.

Direi mais: quem, pobre louco, fixou a duração de tua existência? Acreditas no que dizem os médicos, sem atentar para o que se verifica em torno de ti, e sem julgar pela experiência. Pelo andar das coisas, há muito já não vives, senão por excepcional favor. Já ultrapassaste a duração habitual da vida. Podes comprová-lo contando quantos entre os teus conhecidos morreram antes dessa idade, em bem maior número do que os que a alcançaram. Anota os nomes dos que, pelo brilho de sua existência, adquiriram certa fama; aposto encontrar, entre eles, mortos antes dos trinta e cinco, muito mais do que depois.

Não sabemos onde a morte nos aguarda, esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer desaprendeu a servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento. Paulo Emílio, ao ir receber as honras do triunfo, respondia ao mensageiro enviado por esse infeliz rei da Macedônia, seu prisioneiro, a fim de suplicar-lhe que não o incluísse em seu séquito: “Que o solicite a si próprio”.

Montaigne, dizia “frequentemente indaguei de mim mesmo por que, na guerra, a perspectiva ou a presença da morte, nossa ou de outrem, nos impressiona muito menos do que em nossos lares. Se assim não fosse, um exército se comporia unicamente de médicos e de chorões.

Estranho igualmente que a morte, em sendo a mesma para todos, a acolham com mais calma os camponeses e o povo miúdo que os outros. Creio, em verdade, que são esses semblantes de circunstância e esse aparato lúgubre com que a cercam, que nos impressionam mais do que ela própria.

Quando ela se aproxima, há uma modificação total em nossa vida cotidiana: mães, mulheres e crianças gritam e se lamentam. Inúmeras pessoas nos visitam, consternadas; a gente da casa fica aí, pálida e desesperada; a obscuridade reina no quarto; acendem-se velas; à nossa cabeceira juntam-se padres e médicos; tudo, em suma, em volta de nós se dispõe como para inspirar horror; ainda não rendemos o último suspiro, e já estamos amortalhados e enterrados. As crianças se amedrontam quando as pessoas, mesmo suas conhecidas, se apresentam mascaradas; pois é o que ocorre nesse momento. Arranquemos as máscaras das coisas como das pessoas e, por baixo, veremos muito simplesmente a morte. A mesma com a qual partiu ontem, sem maior pavor, tal ou qual criado ou camareira. Feliz é a morte que nos surpreende sem que haja tempo para semelhantes preparativos!”

Viva os momentos, aprenda que viver é morrer, viva!

Fonte: Ensaios