Meu segundo sobrinho vai nascer daqui a alguns meses e eu estou muito empolgada. Sim, eu não sou a mãe… eu sou a tia, aquela que mima e leva pra passear. Mas, felizmente, eu gosto de ajudar e gosto de aprender sobre esse universo que exige muita, mas muita paciência para lidar e crescer. Por isso, depois de ouvir muitas pessoas falando, chegou a minha vez de desabafar como mulher, como tia e como irmã de uma mãe.

Mães, parabéns pela garra! Pais, eu sei que vocês também sofrem com todo esse processo, mas hoje eu vou falar delas, ou melhor, de nós. É nas costas delas que vai pesar, que vai doer. O julgamento sempre acaba nelas.

É desde a escolha do parto até o período de amamentação. E não para por ai … A questão é: deixem as mães em paz! Todas, sem exceção de nenhuma. Pobre, rica, negra, branca, asiática, brasileira, nova iorquina, mãe de gêmeos, mãe de um só, mãe solteira, mãe lésbica, mãe-pai, pai-mãe. Vocês querem só ajudar, mas acabam atrapalhando. E muito.

Digo isso porque eu já fui uma dessas pessoas que idealizava a maternidade e queria que a minha dinâmica fosse regra. Só que não é assim. O sistema prioriza cesarianas e o parto natural é incrível? Pode ser, mas não para todas.

Amamentar até os 2 anos é recomendação da OMS? É sim, mas isso não é possível em todas as realidades.

Usar fralda descartável é prejudicial para o meio ambiente? É sim, mas a de pano não faz parte da dinâmica moderna de muitas famílias.

Mas já vai para a escolinha? No orçamento da grande maioria dos casais, não existe a opção largar o trabalho e ficar em casa ou contratar uma babá.

Ah, mas ele dorme com você na cama? Imagine seu filho chorando horrores madrugada adentro. Nem todas acham certo deixá-los sozinhos. Nem todas acham certo coloca-los na cama.

“Nossa, como ela come” ou “Nossa, como ela está magrinha/ gordinha” ou “Nossa, meu filho não era assim” ou “Nossa, isso não é normal”.

Chega!!!

Mesmo sendo os avós, a experiência que vocês tiveram pode ser diferente. Tios e tias, pensem no que vão falar. Qualquer coisa pode deixar os pais muito frustrados e chateados. Amigos e amigas, avisem quando forem visitar, ninguém é obrigado a recebe-los com uma mesa de café da manhã. E sejam breve. Se você pensa diferente, faça do seu jeito quando você tiver o seu filho. Respeite a opinião e as regras de outros casais.

Vamos deixar outra coisa bem clara: se você não tiver assunto, se você não entender muito de maternidade e quiser ajudar, fiquei à vontade para varrer a casa ou lavar a louça. Não precisa saber trocar a fralda, até porque isso é o de menos. Se faltar assunto, se a conversa acabar, não tem problema. Contemplem o silêncio juntos. Você escolhe o papel que você quer desempenhar como tio (a), amigo (a), sogro (a), vizinho (a). Peça licença antes de entrar, sempre. Regra número 1 de etiqueta.

 

Deus me livre um dia parir e ter meu corpo e minhas vontades desrespeitadas. Deus me livre um dia ser submetida a procedimentos desnecessários apenas por convenção médica. Deus me livre um dia me tirarem o sentimento de ser mãe para ser mera paciente de um sistema fazedor de humanos. Deus me livre um dia me proibirem de alimentar o meu bebê com o leite que meu corpo produziu por ser ‘vulgar’. Deus me livre do julgamento quando eu der as regras de visita na maternidade. Deus me livre se pegarem no meu bebê recém-nascido com a mão suja de metrô e ônibus e eu ter que aceitar por se tratar de “anticorpos”. Deus me livre estar costurada, com dor, sono e irritada e aparecer visita surpresa para ver o bebê. Aqui não é três reis magos, não. Deus me livre tanta coisa, mas a verdade é que se a gente colaborar e pensar mais no outro, todo mundo vai se livrar de algum sofrimento evitável.

A verdade é que você vai criar os seus filhos da maneira possível e não do jeito que você sempre sonhou. Não se engane, não sofra, não se cobre. Viva um dia de cada vez e faça o possível para ter e dar alimento, amor, conforto e educação. Essas pessoas todas podem ter dito qualquer coisa pra você, eu posso ter dito muita baboseira para a minha irmã, mas eu nunca tive a ousadia de falar “Ninguém disse que seria fácil”. Chega de comparações, chega de mandingas, chega clichês, chega de ruídos, chega de “disse-me-disse”. Sinta quando pode falar, sinta o que e quando deve falar e agir. Maternidade exige sensibilidade não só dos pais, mas de todos ao redor.